Algum lugar, Glória Ferreira, 2005

Algum lugar, Glória Ferreira, 2005
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Algum lugar
Glória Ferreira, 2005

Signos gráficos, lentes, portas e espelhos estão entre os elementos com os quais Ricardo Becker vem configurando sua obra. De um trabalho a outro, na multiplicidade de suas precisas formalizações, é grande o contágio das evocações, como se essa rede de apropriações, com seu jogo de estranhamentos e paradoxos, desvelasse interrogações sobre a nossa situação no mundo: é um labirinto, mas feito de portas; são chaves de operações matemáticas que rejeitam qualquer postulado; são lupas que levam a enganos perceptivos…

Tomando emprestado à notação matemática o símbolo que indica prioridade na execução de um conjunto de operações, mas também simples signo gráfico da natureza do parêntese, que indica a reunião de itens relacionados entre si formando um grupo, na série Entre algum lugar nenhum não há itens relacionados ou operações, a ser não poéticas.

São chaves, portanto. E, como essas, convocam uma polissemia de significados metafóricos, como abrir ou fechar, símbolo de pertencimento ou de autoridade, meio de acesso ao conhecimento, a reinos divinos, a códigos ou sonhos, mas também elemento essencial para a eficiência de um sistema, de uma teoria, de campeonatos esportivos, enfim, para a decifração de problemas, de charadas. Apresentam-se vazias, apenas símbolos, anteriores a qualquer sintaxe. Livres de sua função na linguagem e abertos a quaisquer códigos, ao ganhar corporeidade em aço, madeira ou vidro inscrevem-se no espaço, pontuando-o. Convocam o corpo, tanto pela escala das peças em aço quanto para desnorteá-lo com alterações da visibilidade sob os efeitos defletores do vidro. Apresentando-se como signos inscritos em papéis ou espelhos, conformam uma espécie de linguagem. Mimetizando a operação matemática, como processo em que uma entidade se transforma em outra, relegam os possíveis raciocínios hipotéticos – dedutivos ou demonstrações racionais, Entre algum lugar nenhum expõe-se como pura experiência.

Passeio da sombra, de 2004, convida o passante a um percurso labiríntico. Trata-se de um labirinto formado por um conjunto de portas – portas reais, de uma folha, de correr, internas e externas, simples vedações, de madeira, vidro, espelho, tendo servido a outras passagens, aberturas e fechamentos. Levam, hoje, a algum lugar? Suas estórias foram esquecidas? Ou, ao fazer o espectador entrar em um universo deslocado em pleno centro histórico carregado de memória, atualizam ausências, reminiscências, sombras de colombinas e pierrôs apaixonados, de lutas políticas, de transformações urbanísticas? As portas, com sua plasticidade, interpondo-se em lugar de passagem, embaralham o simples ir-e-vir, questionam a “funcionalidade” do lugar e, como sombras, propõem a remissão ao passado e a busca do desconhecido. Haveria ainda a possibilidade de um redentor fio de Ariadne? Ou de que, diante da fragmentação atual, em que portas levam a portas, conexões a conexões, links a links, se impusesse a permanente crítica e identificação de minotauros?

Passeio da sombra foi instalado na Cinelândia. Espaço delimitado por construções que relembram o Rio capital do Brasil, como o Theatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas-Artes, o Supremo Tribunal Federal ou ainda a sede do Legislativo carioca, o Palácio Pedro Ernesto, hoje abriga, como o título do trabalho sugere, sombras do antigo centro de espetáculos, boemia e manifestações políticas. Sombras de uma cidade maravilhosa, “cheia de encantos mis”, hoje partida e permeada por sinais de franca decadência. A forte carga simbólica e crítica em relação às atuais condições socioeconômicas e culturais do Rio de Janeiro parece sugerir que, se portas existem, e, assim, possíveis saídas, talvez seja viável desenredar-se de labirintos burocráticos, políticos e corruptos. Ao inscrever-se na esfera do urbano e dirigir-se ao transeunte das mais variadas procedências, o labirinto, ao converter o local de passagem em local de experiência, convida a perceber o aqui e agora, ao mesmo tempo os signos do passado e possibilidades do futuro.

Mas, se Passeio da sombra convoca histórias particulares de serventias passadas e a História que a situação de sua inscrição postula, também dialoga com momentos de profundas mutações da arte. Ao momento decisivo dos embates constitutivos do pensamento artístico renascentista, fundado na construção perspectiva central, e simbolicamente representado pelas portas do Batistério de Florença, realizadas por Ghiberti, o labirinto de portas indica a impossibilidade de homogeneidade e unidade de um espaço, garantindo um lugar privilegiado para o sujeito. À saga da Porta do Inferno, de Rodin, sem território e não mais assegurando o monumento em sua completude simbólica, como intervenção efêmera, Passeio da sombra incorpora a transitoriedade do urbano e a temporalidade como seus “materiais”, consubstanciadas na experiência suscitada pelo próprio trabalho.

Em Belvedere, 2005, apresentado por ocasião da inauguração da Galeria Novembro Arte Contemporânea, no Rio de Janeiro, um penetrável construído por 1.700 lupas de dimensões variadas presas no teto e nas peredes, e em diólogo com um vídeo, reverbera uma vez mais a possibilidade e a exigência de uma experiência integral. Conjugando lupas transparentes, translúcidas, espelhadas ou cegas, aglomeradas como em cachos ou suspensas no preciso emaranhado de correntes, qualquer suposição do aumento potencial da visão nos expõe a enganos e alterações da percepção – a lupas que ampliam outras lupas, que impedem ou distorcem a visão ou, simplesmente, a negam. No vídeo, em looping, a imagem da paisagem, a partir de um belvedere da estrada Rio-Petrópolis, é cortada na iminência de desvelar o panorama. Como diz Fernando Cocchiarale, “O Belvedere de Ricardo Becker parece nos perguntar: qual seria a função do olhar na arte contemporânea? A contemplação ainda estaria na linha de frente desse outro olhar?”1.

Conhecida desde a mais remota Antigüidade por sua capacidade de convergir a luz do sol sobre pontos a serem queimados – louvadas, por exemplo, por Aristófanes, em As Nuvens, como uma astúcia para destruir pelo fogo as anotações de suas dívidas com seus credores -, a lupa como instrumento óptico constituído de uma lente convexa, que apresenta a imagem virtual aumentada de um objeto, é a forma mais simples do microscópio. Anuncia, de certo modo, o que Walter Benjamin, referindo-se à fotografia, chamou de inconsciente óptico – aquilo que não vemos na percepção normal. Conta a lenda, por exemplo, que Neron olhava os combates dos gladiadores através de uma esmeralda. O célebre quadro de Rafael O papa Leão X e dois cardinais, de 1518, no qual o pontífice segura uma lupa ornada de ouro junto a um livro, ilustra o desenvolvimento dos estudos sobre a natureza da luz e sua interação com a matéria, dando origens a diversos instrumentos que revolucionaram a concepção da organização do universo (como o telescópio), mas também sua racionalização com o crescente poder dos conceitos difundidos pelos livros.

Como as portas de Passeio da sombra, as lupas em Belvedere ou ainda na trama de reflexo e imagens de Você não está aqui, 2001, Ricardo Becker parece nos lançar no emaranhado de situações perceptivas e vivenciais nas quais se evidencia a falácia da crença no todo, mas também a inviabilidade da redenção pelo detalhe. Redes. Malhas abertas, talvez, como condição de possibilidade da situação contemporânea.