Belvedere, Fernado Cocchiarale, 2005

Belvedere, Fernado Cocchiarale, 2005
zweiarts

Belvedere
Fernado Cocchiarale, 2005

Belvedere não é apenas o nome desta exposição de Ricardo Becker, mas um conceito que esclarece seu sentido essencial. Palavra italiana que designa pontos privilegiados para a apreciação de paisagens, belvedere supõe um contemplador que ali está pelo simples prazer de ver uma cena digna de ser contemplada por sua beleza.

A espécie humana, seguramente e desde sempre, se sentiu atraída pela visão do magnífico espetáculo de certos aspectos da natureza, mas certo é também que essa experiência era vivenciada pelo filtro dos deuses e pelos véus dos rituais sagrados. Os montes Olimpo e Sinai não eram, no passado, apenas belas montanhas; para os índios que habitavam o atual Rio de Janeiro a baía de Guanabara seria o seio do mar…

Há, portanto, na designação belvedere, uma concepção e um exercício do olhar mundano restrito à experimentação do belo qual um fim nele mesmo, concepção tecida pela história européia entre a Renascença e o surgimento das teorias da arte no final do século 18. Sabemos que antes do século 15 a contemplação da Beleza e a interpretação de seus traços essenciais não estavam entre os objetivos da arte, cuja função era, sobretudo, mágico-religiosa.

Uma das contribuições fundamentais do Iluminismo para o futuro da arte (Diderot, Winckelmann, Baumgarten, Lessing e Kant) foi a de produzir razões não só para a sua autonomia, como também para a sua contemplação pura e simples. A partir de então, essa nova experiência, a experiência estética, passa a pressupor uma relação binária, estabelecida entre um sujeito e um objeto; uma contemplação implícita desde a invenção do quadro, pensado pelos renascentistas qual uma janela, análoga à observação científica.

O Belvedere de Ricardo Becker parece nos perguntar: qual seria a função do olhar na arte contemporânea? A contemplação ainda estaria na linha de frente desse outro olhar? Centenas de lupas presas a correntes preenchem, como cipós, toda a galeria, desde a entrada. Temos de entrar no trabalho, penetrá-lo, esgueirar-nos entre as lupas. Elas são emblemas de uma visão clara e minuciosa, num conjunto que se impõe ao detalhe. Imersos no ambiente, tentamos nos deslocar por entre lupas que dificultam nossa circulação. Ao final do percurso, projetado na parede do fundo da área expositiva,  um vídeo em looping nos mostra o trajeto da câmara desde o acesso até o limiar da vista proporcionada pelo belvedere da estrada Rio-Petrópolis. Na iminência de chegarmos ao momento de vê-la, a imagem é cortada e voltamos ao começo do vídeo. Um percurso sem fim, refeito infinitamente.

Qual Sísifo, nosso olhar não consegue chegar ao termo da contemplação anunciada pelo título e pelas imagens do trabalho.

Se examinarmos com atenção as lupas que integram a instalação, veremos que, a despeito de seu tamanho e aspecto idênticos, muitas delas sofreram dois tipos de intervenção do artista: ao lado daquelas intactas, Becker jateou parte das lentes, tirando-lhes a transparência, as deixou translúcidas; além dessa alteração produziu uma outra, na qual simplesmente vedou de negro as lentes, cegando-as pela opacidade total.

É evidente que tanto o vídeo quanto os cipós de lupas nos convocam para uma experiência física, integral do trabalho. A contemplação implícita no conceito de quadro supunha um passeio do olhar no qual nosso corpo tinha, por princípio, seu acesso interditado à obra (favor não tocar…). No Belvedere de Becker, ainda que não penetremos corporeamente no monitor do vídeo apresentado, jamais também consumamos a contemplação da paisagem.

Por outro lado, envoltos pelas lupas, não podemos contemplar o conjunto do trabalho de um único ponto de vista, como fazíamos ante um quadro. Nem a imersão de nosso corpo no trabalho nos dá a certeza desse ponto, nem a obra foi concebida com esse fim.

Tampouco podemos compensar a impossibilidade de contemplação do todo, pelo exame do detalhe, uma vez que as lupas (cuja função seria aumentar nossa visão) são elas mesmas esses detalhes, são fragmentos parciais de uma visão total que a contemporaneidade não mais nos pode oferecer.