Entre Algum Lugar Nenhum, Cristina Bach, 2000

Entre Algum Lugar Nenhum, Cristina Bach, 2000
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Entre Algum Lugar Nenhum
Cristina Bach, 2000

Ricardo Becker vem exibindo há alguns anos uma produção que prima tanto por uma contenção formal quanto pela força de presenças ousadas. O artista segue uma coerente seqüência de estratagemas ótico-sensoriais que deliberam sobre precisões. Compulsivamente especulares, suas peças são apenas enganosamente sóbrias: en passant, tecem discretíssimos comentários sobre um pouco de tudo na vida – desde desorientações situacionais ao reconhecimento da elegância tecnológica atual. Como um afinado contemporâneo, o repertório plástico de Becker é, de fato, breve, mas profícuo e eficaz.

‘Entre’ é uma espécie de comando geral presente nas mais recentes obras do artista: ‘entre (em) algum lugar’, ‘coloque(-se) entre (as) coisas’. Incorporado há algum tempo, um dos símbolos algébricos para os agrupamentos operacionais – a chave -, esbalda-se agora numa farta experiência espaço-temporal. Acomodado ao pensamento dos intervalos temporais, às distâncias físicas, às reuniões necessárias, o signo gráfico ofereceu ao artista a oportunidade para as mais inesperadas investigações perceptivas. Por outro lado, as peças desenvolvidas com tal cumplicidade, tornaram-se, pouco a pouco, um convite perverso: ‘entre algum lugar nenhum’. Ora, quem suspeitaria que as ‘chaves’ poderiam ser tão dissolutas?

Observemos os estranhamentos semióticos trazidos pelos vidros foscos nos quais algumas chaves impressas nos dois lados do plano ajeitam incluem e expulsam, reúnem e dispersam. O ‘entre’ aparece e some, comparece e dilui-se em segundos – dizem ‘conjunções e disjunções. Deturpadas, enfraquecidas pela difusão, as chaves inscritas numa face assimilam constantes dubiedades com a sequência da outra. As duplas resultantes oferecem lapsos incessantes: sim’ e ‘não’ ao mesmo tempo. Já com os reflexos viabilizados pelos espelhos das simpáticas caixinhas redondas, Becker ampliou a potência especulativa das chaves, aviando intrigantes silogismos visuais. Refletido obrigatoriamente no espelho, o olhar capta-se ‘dentro’ da obra, inserido nos ditos signos algébricos: ‘entre’. Junto à nós, parecem sugerir estes objetos, o mundo circunstante e todas as operações relacionais que unem as coisas, acontecem e desacontecem o tempo todo.

Após esta produtiva fase de exames literais, Becker partiu para uma avaliação dos efeitos tridimensionais trazidos pelas ‘chaves’. O artista iniciou uma bateria de testes situacionais ‘encarnando-as’ em alumínio maciço. Pensadas para funcionar na estatura do homem, as criaturas daí resultantes mostraram-se surprendentemente versáteis, passíveis de apresentarem-se ‘deitadas’ ou ‘encostadas’ em paredes, em grupos ou isoladas. ‘De pé’, ‘de costas’, hoje são seres que conversam, descansam e quase caminham: zombam de nós com uma curiosa capacidade de adaptação aos trejeitos humanos. Hábeis, despachadas, as chaves definem tipos livres que espalham um sem número de questões que deveriam, por definição, restringir. Sozinhas, ‘recostadas’ em muros, aguardam bem-humoradas uma parceira; tête-à-tête ou invertidas, tanto reúnem um grande vazio quanto abrem uma equivalente oferta de significações – apontam para uma vastidão que ironiza suas presenças e desconstrói um sólido currículo. Encantadoramente promíscua, a superfície polida recolhe e distorce em suas curvas as manifestações de qualquer circunstância – jamais adotará em definitivo lugares ou momentos. Abusando de suas utilidades, as ‘chaves’ metálicas de Becker preparam um abismo espaço-temporal, um ‘entre alguma coisa nenhuma’ que surpreende-nos com um radical ‘tudo ou nada’. Daí a irônica facilidade de sua inserção pública: desejamos coisas com princípio, meio e fim, ainda que precários, injustificáveis ou ilusórios. E, afinal, estes são, mal ou bem, objetos divertidos.

Já o vidro vertical e semicircular, com as extremidades laterais definidas pelas ‘chaves’, habilitou o artista à um significativo up grade experimental. Esta é uma peça que almeja a presença humana ‘dentro’ de seu domínio espacial. Aberta aos ensaios públicos, a concavidade requer incessantemente uma outra presença para declarar-se ‘lugar’. No entanto, caso o observador proponha-se a penetrá-lo – e o convite é instigante –, será apanhado por um forte desequilíbrio: os reflexos curvos não permitem enxergar com clareza os reais limites do ‘vazio’ que o aguarda. Os desvios astigmáticos derivados das deformações refratárias da ‘parede’ de vidro são tão intensos que a percepção perspética se ‘vê’ extremamente comprometida. Por conta da transparência do material, é-nos sugerido captar o ambiente que abriga a peça – o aqui e o lá, o antes e o depois da ‘escultura’. Onde estão os exatos extremos do objeto: onde localizam-se as fronteiras deste desenho espacial? Onde começa e acaba a sua vigência física? A intriga perceptiva prolonga-se na pergunta sobre o seu volume real: desmaterializado quase até o limite da virtualidade, o objeto institui uma grave cisão entre experiência e conhecimento. Impõe-se enigmático tal qual o segundo advento plástico que surge do ‘nada’ para a tribo de austrelopitecos que habita a introdução de Uma Odisséia no Espaço, de Kubrick. Nos dois casos, o corpo não é capaz de atravessar as barreiras diáfanas da aparição, embora o pensamento seja induzido pelos olhos a transpassá-las e a especular sobre o tipo de perturbação que viabiliza a continuidade espacial que difusamente estampam.

O efeito da matéria silente governa a loteria do que é/não é disparado pelo objeto que estende-se e suga o observador para um precipício. Ao confundir-se sobre o real alcance da obra, ele é abduzido para um situs desconhecido, onde os comandos frente/costas, embaixo/em cima não mais atuam. Ao deixar-se aplicar num ritual cinético, cumprirá as demandas óticas da dinâmica dos reflexos: o vidro ativa excessos virtuais que propagam visibilidades alteradas e deformações perceptivas de tal monta que resultam em enigmas existenciais. Os efeitos denorteadores da superfície defletora realçam os (não)contrastes que identificam-se com a confusa aparência do mundo, reenviando o espectador à sua vivência cotidiana inconsciente. ‘No’vidro,depara-se com seu ectoplasma, com um reflexo desencarnado subtraído da experiência sensível, figurado dentre as muitas fantasmagoria do mundo – uma coisa a mais na Terra. E coisas são o que parecem ser.

Observando-se de um ângulo mais abrangente, o trabalho de Becker comenta as muitas qualidades e o tanto de problemas acolhidos pela conturbada percepção contemporânea. As ‘esculturas’ que saem de seu atelier habitam, sem dúvida, o nosso mundo: não diferenciadas por pedestais, são criações que transitam indolentes sobre o mesmo piso que caminhamos, entidades que atuam num campo de expansão horizontal, terreno. Ora, o vidro exibe a estatura do homem e as chaves metálicas exibem-se nas posições humanas: um flutua e as outras flanam uma suspeita esquizofrenia. Realizadas sem gestos expressivos, estas são obras que receitam a liberdade do olhar e da alma: recomendando serialidades e um necessário ascetismo, alinham-se aos organismos mais atuais. Extremamente generosas, afinal, as peças do artista possibilitam um inusitado mergulho nos mais profundos labirintos idiossincráticos: entre algum lugar nenhum. Mas, deixemos de lado as questões acerca do que é real ou não, até porque nada o é. O recomendável é permanentemente reconsiderá-lo enquanto experimenta-se. O tempo todo.