Projeto Cisco, Fernando Cocchiarale, 2012

Projeto Cisco, Fernando Cocchiarale, 2012
zweiarts

Projeto Cisco
Fernando Cocchiarale, 2012

O Projeto Cisco, de Ricardo Becker reúne alguns de seus trabalhos mais recentes.  O título da mostra é sugestivo. Parece-nos alertar contra algo que compromete nosso olhar, ainda que temporariamente. Ciscos estão à solta e o vento pronto para levá-los aos nossos olhos. Talvez eles sejam uma das poucas maneiras de ver vento – ainda assim, por meio de seu efeito mais incômodo, posto que compromete o ato indicial que negativamente evoca. Visualizá-lo, de maneira poética, foi o desafio maior que o artista se propôs a vencer  neste Projeto Cisco.

Nenhum meio icônico usual (pintura, fotografia, cinema, escultura) registra diretamente o vento. Somente seu efeito sobre as coisas é visualizável: nuvens que se desfazem em rápido movimento, árvores que vergam e balançam, guarda-chuvas ao avesso, cabeleiras a voar.  Na vida real a situação não é muito diferente. Afora ciscos (comumente a pior experiência tátil que dele se pode ter), só sentimos o vento que toca ou chicoteia nossos corpos ou quando muito o vemos em sua ação indicial sobre as coisas por ele afetadas.

Estes são limites que Becker se propôs a vencer nesta mostra, formada a partir de cinco trabalhos que exploram diferentes possibilidades de visualização do mais invisível dos elementos − o ar − e sua manifestação sensorial mais evidente , aquela que só é possível por meio do vento.

O percurso do Projeto Cisco inicia-se com um vídeo que nos mostra o fluxo do vento sobre as areias da praia. Montado próximo a este vídeo, um espelho em movimento faz com que o rosto daqueles que nele se miram, seja visto de maneira oscilante. Na sala seguinte o visitante recebe uma rajada ininterrupta de vento (provocada por ventiladores instalados no interior do Penetrável que ocupa o salão principal, circunda a sala da esquerda e retorna ao salão de entrada configurando um circuito).

Finalmente, na última sala da galeria estão dispostas duas esculturas. Uma delas realizada com grandes galhos abraçados ao centro por fios de aço; outra, uma pequena árvore que testemunha em sua configuração escultórica o assédio exercido sobre ela pelo vento, ao longo de sua breve existência. Mas é bom que o visitante não perca de vista que os únicos ciscos que existem de fato neste projeto são aqueles formados por  hábitos artísticos acomodados ao senso comum.